Você já sabe que não há perigo. Então por que o medo não para?
Conheça o que é a ansiedade em suas múltiplas dimensões, o que é a hipnose holística e como é o tratamento hipnoterapêutico para a ansiedade
Conheça o que é a ansiedade em suas múltiplas dimensões, o que é a hipnose holística e como é o tratamento hipnoterapêutico para a ansiedade
A ansiedade é uma das questões de saúde mental mais comuns e presentes na nossa sociedade, juntamente com a depressão. Segundo estatísticas da Organização Mundial da Saúde, o número de pessoas que sofrem com ansiedade tem aumentado a cada ano no mundo todo, mas o Brasil é considerado o país mais ansioso de todos.
Para podermos compreender esse quadro alarmante, se faz necessário um olhar holístico e integral para o ser humano como um todo, como salientado pelo autor da psicologia transpessoal Ken Wilber, considerando questões sociais e culturais – em mundo em que a produtividade e o fazer são supervalorizados em detrimento do ser e da precarização da saúde mental -, questões biológicas e neurológicas – existe todo um funcionamento cerebral e físico relacionado ao surgimento e à dinâmica da ansiedade -, questões relacionais – o impacto que as relações familiares, de trabalho, com amigos e com as pessoas de uma maneira geral tem sobre a saúde mental são extremamente importantes – e a própria dinâmica intrapsíquica e emocional que o sujeito portador de ansiedade tem.
No âmbito social, vivemos em uma cultura de performance, em que toda postagem é importante para a nossa imagem. E em uma sociedade altamente imagética, em que a máscara social parece ser o elemento mais importante de todos, a ansiedade é uma consequência esperada para muitas pessoas. Da mesma forma em que temos um desempenho social pelo qual somos cobrados, profissionalmente a cobrança e exigência de alta produtividade é um ponto comum em muitos labores. Com o desenvolvimento tecnológico, a sensação de que as infinitas tarefas nunca cessam e de que temos que estar sempre disponíveis profissionalmente engole a saúde mental de muitas pessoas. Viver em um mundo marcado por guerras, crises climáticas, instabilidade econômica, pandemia e polarização política certamente acarreta em uma dose significativa de ansiedade para uma parcela significativa da população.
Biológica e neurologicamente, a ansiedade é uma resposta de alarme do sistema nervoso que ficou preso em um estado ansioso após uma ou mais situações que justificavam esse alarme. Porém, mesmo sem um perigo real ou com um gatilho emocional e simbólico, o corpo continua reagindo como se estivesse preso em um loop somático e emocional. Diferentes sintomas físicos e mentais podem surgir, como taquicardia, dificuldade de respirar, tensão muscular crônica, nó no estômago, pensamentos acelerados, ruminação, dificuldade de concentração, necessidade de estar no controle, entre outros. Neurologicamente, em um estado de ansiedade crônica, a amígdala fica hiperativada e detecta a presença de perigo, mesmo que de maneira distorcida, imaginária ou irreal. A amígdala aciona o eixo HPA: hipotálamo, hipófise e glândulas adrenais, o qual dispara os hormônios de cortisol e adrenalina no corpo para que lute, fuja ou congele. O corpo entra em estado de emergência, de uma tal forma que o córtex pré-frontal – responsável pela racionalidade do ser – se torna inibido pela amígdala, que toma conta e traz várias sensações de que o perigo está a espreita, mesmo que racionalmente saibamos que não é verdade. Além disso, o hipocampo – responsável pela memória, inclusive emocional – registra cada experiência ansiosa, reforçando o padrão que se consolida sempre com as mesmas vias neurais.
Como seres profundamente gregários, nós, seres humanos, precisamos sempre do outro. E os diferentes tipos de relação podem ser também grandes geradores de ansiedade. Seja o medo de ser punido por não ter agido corretamente que desencadeia uma ansiedade antecipatória, seja uma ansiedade de desempenho sexual na relação íntima com o parceiro, seja a ansiedade como um modo padrão profundo de se relacionar com os outros e aprendido na relação com pais instáveis, ausentes ou imprevisíveis, o outro é uma dimensão incontestavelmente humana e possivelmente gerador de conflitos.
Em relação à dinâmica psíquica e psicofísica, na ótica reichiana a ansiedade é profundamente ligada a uma respiração curta, superficial e contida no tórax, de forma que a expiração nunca é completa. No nível dos olhos, estes se tornam hipervigilantes, rígidos, fixos ou esquivos, em um constante estado de alarme que se tornou cronicamente instalado no corpo. O diafragma é considerado a sede da ansiedade, além de ser a região que divide significativamente o corpo em dois blocos. Quando contraído, ele não permite que a energia e as emoções circulem livremente pelo organismo, o que impacta profundamente na saúde bioenergética do ser. Já na ótica junguiana, a ansiedade pode ser uma manifestação externa de pressão do inconsciente para que algum conteúdo interno seja reconhecido, aceito, elaborado. Quando o indivíduo se foca demais em agir segundo a sua máscara social, por exemplo, e há uma grande distância entre quem ele realmente é – o seu Self – e quem ele se permite ser, a ansiedade vem como um alarme de que algo mais precisa ser levado em consideração nesse mundo interno. E quando o inconsciente é ignorado, ele comumente se manifesta através do corpo como forma de protestar contra o ego.
A hipnose clínica é uma das ferramentas terapêuticas mais eficientes no tratamento da ansiedade. Se, por um lado, a psicoterapia verbal geralmente se detém na análise racional, no discurso do paciente e na percepção consciente, a hipnoterapia, por outro lado, busca alcançar um estado neurofisiológico e subjetivo em que a mudança interna possa acontecer mais profunda e efetivamente.
No estado de vigília, o ser humano tem um funcionamento cerebral em que há uma maior hierarquia e rigidez, com comando do córtex pré-frontal e o controle da consciência racional. Muitas vezes o que é dito para uma pessoa neste estado permanece somente a nível racional, sem atingir as profundas reações emocionais e somáticas. Já no estado de transe terapêutico, o qual é induzido de uma maneira muito simples na maioria das vezes, a consciência se torna mais absorvida internamente e muito focada, com pensamento crítico reduzido, maior receptividade, maior neuroplasticidade e maior facilidade para trabalhar com conteúdos somáticos e emocionais inconscientes.
Algumas pessoas expressam um certo temor ao ouvirem sobre hipnose, devido a mitos e inverdades difundidos na cultura popular. Contrariamente do que se acredita, ninguém perde o controle e nem faz nada que não queira ao entrar em transe. O hipnólogo não tem controle absoluto da sessão e nem pode desrespeitar a vontade e os valores do cliente, o qual tende a sair de transe imediatamente caso sinta que seu mundo interno e seus valores estejam sendo desrespeitados. Ninguém conta segredos ou fatos desagradáveis que não queira contar ao hipnólogo, tudo ocorre dentro do que a pessoa se sente mais segura e confortável.
Ao contrário da concepção freudiana de um inconsciente como depósito de conteúdos reprimidos, a visão de inconsciente na hipnose holística é muito mais positiva e profunda. Baseado em uma visão transpessoal e junguiana, o inconsciente é concebido como a nossa parte mais sábia, o nosso curador interior, que sabe exatamente qual é a melhor forma de trabalhar conosco e até onde damos conta do trabalho emocional. No estado de transe terapêutico, temos a possibilidade de trabalhar em parceria com a sabedoria interior inconsciente da pessoa, o que abre um leque de possibilidades para intervirmos terapeuticamente com profundidade e eficácia.
Neurologicamente, ao entrar em transe, o cérebro entra em padrões de onda alfa e teta, associados ao relaxamento profundo, à criatividade e ao processamento emocional. É um estado em que podemos contornar as defesas do ego com maior facilidade, alcançar os sentimentos mais profundos e os estados somáticos associados a um conflito e explorar com eficiência as diferentes crenças limitantes e inconscientes, bem como contar com a faculdade intuitiva mais aflorada e a percepção da parte inconsciente mais sábia para nos auxiliar no trabalho interior.
Muitos profissionais hipnólogos, quando questionados sobre as formas com que podemos trabalhar com a hipnoterapia, muito provavelmente responderiam que é através de sugestões diretas ou da regressão hipnótica – o que corresponde a uma parcela somente de todas as possibilidades que a hipnose nos proporciona, ainda mais quando bebemos de diferentes escolas da psicologia.
Devido à grande acessibilidade que o transe hipnótico fornece ao inconsciente nas suas mais diversas manifestações e à maior neuroplasticidade que o cérebro passa a ter nesse estado alterado de consciência, temos vários caminhos interessantes pelos quais podemos trabalhar com a ansiedade.
Muitas vezes, o sintoma da ansiedade acompanha uma ou mais crenças inconscientes e limitantes, fruto de toda uma história de vida, momentos estressantes e marcantes e traumas profundos. Essas crenças inconscientes, segundo a hipnose ericksoniana, tem no seu fundamento maior um conflito emocional, que guia o comportamento humano cegamente e domina a consciência do indivíduo com uma série de sensações físicas e estados emocionais angustiantes. Com a inclusão do transe na terapia, o cérebro humano ingressa em um estado em que podemos explorar com maior flexibilidade e facilidade os diferentes fatores que podem estar por trás dos sintomas ansiosos, como as crenças inconscientes. Em transe, ao falar a crença inconsciente que está por trás de um sintoma em voz alta algumas vezes e com atenção, a pessoa tende a fazer emergir os sentimentos e sensações físicas atrelados a essa crença, o que permite que trabalhemos com as raízes por trás dessa crença. A partir disso, podemos explorar que tipos de imagens ou cenas vêm junto com essa crença inconsciente, sendo que podem ser de um passado mais distante – quando o padrão ansioso começou -, de uma dimensão simbólica ou mesmo uma cena que nunca aconteceu, mas a pessoa a vivencia internamente constantemente. O trabalho com as imagens, sensações, sentimentos e percepções que acompanham essa crença irracional permite identificar tudo o que está associado a ela, questionar essa crença nos seus detalhes e modifica-la por uma nova perspectiva que a pessoa aceite.
Outro modo altamente popularizado através do qual podemos trabalhar na hipnose é a própria regressão hipnótica. A regressão é uma técnica em que, após a indução de um relaxamento progressivo para um transe terapêutico, podemos utilizar a imaginação do indivíduo para que ele se veja em um momento relacionado ao conflito que o incomoda, o que tende a trazer diferentes sensações físicas, sentimentos e percepções que remetem a um passado recente ou remoto. Quando o cliente volta para essa cena do passado com a imaginação, podemos realizar uma verdadeira ressignificação da cena traumática através da modificação dessa cena em tudo o que a pessoa sentir necessidade: expressão dos sentimentos, fazer tudo o que gostaria de fazer para os envolvidos – inclusive o seu eu do passado -, ou até mesmo voltando a cena para o seu início e reescrever a história interna dessa cena para que ela seja completamente diferente. Isso aciona diferentes partes do cérebro e proporciona uma verdadeira modificação das reações somáticas para que a pessoa se sinta muito melhor em relação ao seu conflito original.
Um terceiro caminho muito interessante que temos na hipnoterapia é o uso das sugestões diretas, elaboradas com cuidado pelo hipnólogo para que elas cubram a questão a ser trabalhada por todos os ângulos, incluindo a imaginação e a emersão de sentimentos para fixar profundamente a mudança, focalizando tanto no presente quanto no futuro, explorando a consecução das diferentes etapas e passos para se chegar à meta, além de também imaginar e sentir a meta como já obtida, bem como a inclusão do cancelamento de programações negativas. Da mesma forma que a repetição de frases negativas que nos tocaram emocionalmente na infância estrutura a nossa forma de funcionar no mundo, a repetição de sugestões diretas afirmativas e positivas nos leva a um funcionamento psicológico mais saudável no dia-a-dia.
Outra forma extremamente criativa e interessante de utilizarmos a hipnose no tratamento da ansiedade é a hipnose ericksoniana, uma abordagem mais permissiva e acolhedora, que trabalha com sugestões indiretas, vagas e abertas. Essas sugestões indiretas não forçam de maneira autoritária o cliente a experienciar de uma única maneira no transe, mas deixam em aberto para que o próprio inconsciente dele escolha qual é a melhor forma de utilizar essa sugestão, a qual pode incluir metáforas, anedotas e confusão mental – perfeitas para contornar a resistência de clientes mais defensivos, controladores e racionais. A hipnose ericksoniana envolve o uso de muita criatividade na criação de sugestões e histórias para que a própria sabedoria interior de cada encontre o seu próprio caminho de cura ao usar aquela história da forma que melhor lhe convier.
Uma técnica hipnótica muito profunda e que permite que possamos conduzir o trabalho de transformação interna em parceria com a sabedoria interior inconsciente do cliente é a técnica de comunicação direta com o inconsciente, o qual responde através de movimentos ideomotores os sinais de “sim” e “não”. Essa técnica permite que possamos ir direto ao ponto perguntando ao inconsciente, por exemplo, se há alguma dinâmica do sistema familiar da pessoa que gera a sua ansiedade, se há alguma dor ou conflito que vem da gestação e nascimento gerador da ansiedade, entre outras possibilidades. Além disso, ao trabalharmos uma cena que está por trás da ansiedade, podemos pedir para que o próprio inconsciente, na sua capacidade de curador interior, cure todas as dores e conflitos que afetam o cliente.
Baseando-se no psicodrama, podemos também trabalhar com o psicodrama interno na hipnose, em que exploramos as diferentes cenas imaginadas para ressignifica-las e transformá-las em cenas harmônicas. Essas cenas podem ser tanto cenas dolorosas do passado, cenas do presente existencial a serem exploradas nos diferentes papéis e perspectivas para maior lucidez da consciência, cenas do futuro que envolvem expectativas e consequências das atitudes do presente, quanto cenas simbólicas (linguagem características do inconsciente) ou cenas que nunca aconteceram mas estão pressionando para serem vividas internamente. Com a vivência do cliente nos diferentes papéis de cada cena e também como observador, a sua consciência vai se expandindo para ter maior clareza, além de poder ter a visão da sua sabedoria interior e o entendimento intuitivo como ferramenta fundamental para auxiliar no trabalho interno.
Uma das técnicas mais importantes da psicologia junguiana é a imaginação ativa, outra grande ferramenta que podemos utilizar no transe hipnótico. A partir da indução hipnótica que conduz o cliente a entrar em estado alfa e ter maior acesso ao seu inconsciente, a imaginação ativa explora o uso de imagens e símbolos que surgem na mente em transe ou que podem ser retomadas de um sonho inacabado do indivíduo, e pede-se para que este deixe as imagens simbólicas fluírem como se um fosse a continuação de um sonho, respeitando a linguagem do inconsciente. Pode-se com isso dar vida às imagens do inconsciente e dialogar com elas, visando a sua integração com o ego.
Uma última forma muito importante com a qual podemos trabalhar com a ansiedade na hipnoterapia é a combinação da hipnose ericksoniana com a terapia corporal reichiana. Reich identificou que a ansiedade, assim como muitos outros conflitos emocionais, se manifesta corporalmente como couraça, um padrão de tensão emocional e muscular crônico que funciona como defesa contra sentimentos reprimidos. Seja a tensão no peito que não permite que a respiração seja plena, o nó no estomago característico da ansiedade, os ombros erguidos em uma expressão de medo ou a tensão muscular no diafragma, a ansiedade pode se manifestar de diversas formas como uma energia emocional presa na musculatura somática que não permite a livre circulação da energia vital pelo organismo vivo. Através de diferentes práticas corporais – denominadas de actings na análise reichiana -, busca-se a liberação da energia presa nas diferentes partes do corpo para que haja uma maior autorregulação do organismo. Isso se torna mais intensificado quando combinamos os actings com as sugestões indiretas da hipnose ericksoniana para que o inconsciente trabalhe em diferentes níveis e de forma mais profunda.
A ansiedade é um dos sofrimentos mais comuns da contemporaneidade e a ainda muito mal compreendida. Em um mundo cada vez mais acelerado com o desenvolvimento incessante da tecnologia, cada vez mais viciado em produtividade às custas da saúde mental do trabalhador, cada vez mais distante do contato humano, o tratamento da ansiedade se torna fundamental e uma pedra angular na vida de muitas pessoas. Para que esse tratamento seja realmente efetivo, faz-se necessário que não nos limites somente aos sintomas e exploremos a ansiedade nas suas causas mais humanamente profundas, nas suas raízes existenciais – as quais podem ser bastante diferentes nos mais variados casos.
A hipnoterapia holística traz consigo uma visão de homem altamente complexa e profunda, buscando compreendê-lo nas suas mais variadas dimensões e facetas: física, neurológica, inconsciente, existencial, relacional, arquetípica, sistêmica, espiritual. Essa visão holística, atrelada a um arcabouço teórico e técnico, a uma busca de aperfeiçoamento humano dos próprios hipnoterapeutas e um respeito único pela singularidade de cada pessoa possibilita um trabalho transformador da consciência e libertador.
Se você sente que a sua ansiedade ainda não foi devidamente tocada nas suas raízes, talvez seja hora de explorar um caminho diferente. Quer saber mais? Entre em contato conosco!